Servidores do TRT8 participam de formação sobre tecnologias assistivas

O Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (Pará e Amapá), através da Escola de Capacitação e Aperfeiçoamento Itair Sá da Silva (Ecaiss) e o Subcomitê de Acessibilidade e Inclusão, realizou no período de 11 a 17 de março o Curso de Acessibilidade Comunicacional, que capacitou servidores na elaboração de documentos e materiais informativos acessíveis, garantindo inclusão no âmbito deste Regional.
O curso foi realizado telepresencial (Google Meet), com carga horária de 30 horas/aula, incluindo aulas teóricas e exercícios práticos, com instrução de Milton Carvalho, coordenador-geral de Tecnologia Assistiva do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), mestrando em Comunicação Acessível pela Universidade de Leiria, em Portugal. A primeira aula foi uma introdução ao tema da acessibilidade comunicacional e tecnologias assistivas, em seguida, o instrutor apontou diretrizes e técnicas para tornar mais acessíveis documentos, plataformas, e-mails, entre outros meios de informação.
Ele conta que ao falar diretamente com Luísa Leão, do Subcomitê de Acessibilidade e Inclusão do TRT8, fez questão de sugerir um curso voltado à comunicação acessível para documentos, plataformas e interação digital, “já que muitas das nossas interações se dão no meio digital”, observa. Para isso, apresentou especialmente algumas tecnologias assistivas que são “ferramentas de acessibilidade que visam transformar pessoas com deficiência em simplesmente pessoas”, dando a elas a possibilidade de acessar informações, locomover-se, trabalhar, estudar e interagir livremente.
“Como pude mostrar, nesse momento [da aula usando plataforma digital] sou só Milton, instrutor, não importa se estou enxergando ou não, não faz diferença para esse momento. Através destas ferramentas, tenho acesso ao mesmo conteúdo que é visível para vocês”, explica ele, que também é pessoa com deficiência visual. Ele mostrou ainda como promover acessibilidade universal (para pessoas diversas) nem sempre está na tecnologia, mas na iniciativa de conceber produtos, ambientes, programas e serviços que possam ser usados por todas as pessoas sem necessidade adaptação ou de projeto específico, incluindo os recursos de tecnologia assistiva.
“Então, sejamos dentro das nossas funções tecnologias assistivas, façamos do nosso labor, daquilo que produzimos, algo acessível. Ao desenvolver a tecnologia assistiva, seja na comunicação que faço, no aplicativo que desenvolvo, no atendimento que dou às pessoas, já estou proporcionando isso”, afirmou. Ao longo das aulas também foram apresentados alguns dos recursos utilizados por pessoas com deficiência, como a navegação por teclado em computadores, programas leitores de tela, sintetizadores de voz, displays de Braille, entre outros.
E também recursos pensados ao elaborar produtos e serviços, como aumento do tamanho de textos e imagens, descrição das imagens em forma de texto ou braille, contraste de cores, que facilitam a visualização para pessoas com baixa visão ou daltonismo, por exemplo, organização de informações de forma clara e objetiva. Luísa Leão, deficiente visual, relatou, por exemplo, como é cansativo ter acesso a documentos e informações que chegam em imagens sem descrição ou em formatos PDF que não são acessíveis para leitores de tela ao serem salvos como “PDF Imagem” e não como “PDF Documento”.
“Mesmo obtendo a ferramenta, o aplicativo, a tecnologia, pela falta da atitude das outras pessoas em pensar a acessibilidade no conteúdo, na forma, essas situações se tornam cansativas, frustrantes”, desabafou a servidora. “Comparativamente, não adianta o indivíduo ter a melhor cadeira de rodas do mundo se o trajeto é inadequado para essa cadeira”, agregou Milton. Foi ressaltado por Luísa que existe uma cartilha de boas práticas para a acessibilidade no âmbito do TRT-8, e acrescentou que a partir do curso, pode haver sugestões dos participantes para melhorias e acréscimos.
CULTURA DA ACESSIBILIDADE
Milton Carvalho finalizou a formação ressaltando que é um trabalho contínuo até que a cultura da acessibilidade seja implantada em uma instituição. “Vocês estão no caminho. Uma das questões que sempre gosto de abordar nas formações e até para compreender esse universo de falta de acessibilidade, são as relações históricas, das pessoas com deficiência e a sociedade”.
De acordo com Milton, estas relações podem ser listadas em três palavras: eliminação, segregação e integração. A relação de eliminação corresponde a quando as pessoas eram descartadas por não estar dentro dos padrões. “O nazismo eliminava as pessoas legalmente”, exemplificou. A segregação, algo ainda presente na nossa sociedade, pode ser exemplificado pelo caso de pessoas que defendem que crianças com deficiência estudem em escolas específicas e não em escolas inclusivas. “A segregação não elimina, mas afasta, coloca essa pessoa à margem da sociedade para que ela não seja um peso para as outras pessoas”, explica Milton.
A integração é quando essa pessoa é trazida para o ambiente, seja escolar ou de trabalho, mas fica limitada pela falta de acessibilidade nos ambientes, por ser subestimada, como alguém incapaz de realizar as mesmas tarefas que os outros. “É aquele: ‘olha, tu pode vir pra cá, pra escola, mas tu fica no teu canto sem atrapalhar; tu pode trabalhar aqui, mas fica só atendendo o telefone, porque não tem muito recurso para ti aqui’”, exemplifica Milton.
“E tem a inclusão, que é justamente o que estamos buscando, que todos tenham a mesma oportunidade, possa virar para o colega e dizer ‘aquele processo que a gente tava construindo em comum, eu já concluí’. Tem muita gente ainda pensando na segregação, na integração - não na inclusão. Quando percebo órgãos como o TRT8 promovendo esse tipo de provocação, fico feliz, porque isso faz parte do processo de inclusão, que precisa ser contínuo, efetivo, tem que ficar martelando até aquilo se tornar tão comum que [o martelar] perca o sentido de ser”, finaliza o instrutor.
Texto: Lais Azevedo/Secom TRT8